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A política de juros altos é um tiro no pé
A crise política em curso no país possui o agravante de coincidir com um cenário de desaceleração do ritmo de crescimento da economia. Como costuma ocorrer nas conjunturas de “transição” os indicadores estão um pouco confusos. Enquanto o IBGE, por exemplo, apontou crescimento industrial em abril em 12 das 14 regiões pesquisadas, em abril, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicava queda de 1,1% nas vendas industriais no mesmo mês. O crescimento zero em abril para o conjunto da indústria se seguiu a um desempenho positivo em março (1,5%) e de duas quedas nos meses anteriores (1,4% em fevereiro e 0,5% em março). As indicações são as de que, apesar de estabilizada, a produção industrial mantém um patamar elevado: os níveis de utilização da capacidade instalada, segundo a CNI, estavam em 82,1% em abril. Portanto, ao contrário de 2004, quando boa parte do crescimento se baseou na ocupação da capacidade ociosa existente, daqui pra frente a ampliação significativa dos volumes produzidos irá depender de novos investimentos. Em relação a isso, preocupam as indicações de que os investimentos estão sendo adiados, em função das indefinições da economia. Até o momento a crise política parece não ter afetado significativamente a economia. A desaceleração vinha de antes e decorre da atual política econômica, especialmente a política de elevação de juros, implementada desde setembro de 2004. Talvez o risco maior seja o de que a crise, que tem o seu epicentro no Congresso Nacional, fortaleça a ortodoxia na política econômica do governo, especialmente se surgirem fatos novos relevantes. Apesar de o dólar continuar em sua trajetória de queda, as exportações seguem competitivas, tendo crescido 27% até 12 de junho, e o saldo comercial atingiu US$ 17,2 bilhões, 28% a mais que no mesmo período de 2004. O câmbio valorizado está sendo mais do que compensado pelo aumento do preço dos principais produtos que compõem a pauta de exportação brasileira. Com exceção da soja e seus derivados, todos os 20 primeiros itens do ranking de embarques brasileiros tiveram incremento nas cotações médias apuradas entre janeiro e abril. Até o momento o câmbio valorizado tem dificultado basicamente a exportação de algumas indústrias, que sofrem grande concorrência internacional, especialmente dos produtos chineses, como calçados, móveis e têxteis. A dúvida é até quando vai este bom desempenho do comércio exterior com o câmbio atual. Pesquisa da CNI, realizada com 1.419 empresas da indústria de transformação, indica que, caso o dólar permaneça abaixo de R$ 2,70 até o final do ano, apenas 28% das empresas com atividades exportadoras não pretendem mudar a estratégia voltada para o mercado externo. Isso significa que o investimento voltado para a exportação pode reverter significativamente nos próximos meses. Juntamente com o comportamento do comércio exterior, a entrada de investimentos estrangeiros diretos pode ser considerada outra boa notícia. Somaram R$ 21,59 bilhões nos últimos 12 meses até abril, o dobro do valor obtido no período anterior. A maior parte da entrada de capitais no primeiro quadrimestre de 2005 é de longo prazo, principalmente investimentos diretos. O emprego de carteira assinada continua em alta, aumentando 6,13% nos últimos 12 meses até maio (212.450 só neste mês). O saldo nos primeiros 27 meses de Governo Lula é positivo em 2,4 milhões de vagas. Entretanto, neste período foram fechados quase 700 mil empregos para salários acima de 3 Salários Mínimos e 67% dos novos empregados recebem entre 1 e 1,5 Salários Mínimos (segundo o Caged). Este perfil dos novos postos de trabalho gerados, explica em parte porque a recuperação do emprego nos últimos meses foi insuficiente para fazer o rendimento crescer de forma significativa. O Comitê de Política Monetária (Copom), após nove aumentos seguidos, interrompeu a trajetória de aumento da taxa Selic (taxa de juros utilizada para reajustar os títulos públicos) na reunião de 15 de junho, mantendo em 19,75%, com grandes chances de começar a cair a partir de setembro. Nestes nove meses o governo, por um lado, retirava liquidez da economia através da elevação dos juros, e, por outro, a irrigava com crédito consignado. Com o longo aperto, a economia desacelerou e aumentaram os gastos com juros da dívida pública interna, já que 57,8% da mesma são papéis pós-fixados vinculados à Selic. As taxas de juros brasileiras, as maiores do mundo (13% reais), explicam em boa parte a valorização do câmbio: juros atraem dólares dos investidores; dólares em abundância, em um regime de câmbio flutuante, levam à valorização do real. Mas a política de juros praticada no Brasil é um tiro no pé, pois um aumento de 0,50% na Selic pode abortar um empreendimento industrial, mas dificilmente demove o consumidor a desistir de uma compra à credito, desde que a prestação caiba no seu orçamento. *Economista e supervisor técnico do DIEESE de Santa Catarina. |