| Artigo: A economia no fio da navalha José Álvaro de Lima Cardoso*
Passados dois meses do início da mais grave crise política vivida pelo país nos últimos 10 anos, os chamados fundamentos da economia ainda não foram afetados significativamente. Até a uma determinada altura dos acontecimentos, inclusive, o real continuou se valorizando e o risco país recuou. A tranqüilidade destes dois indicadores, que podem ser considerados os elos fundamentais entre a economia e a crise política, está relacionada a alguns fatores. O principal deles é o ambiente externo, puxado pelo crescimento da economia mundial acima do previsto, fator impulsionador das exportações brasileiras, que continuam crescendo vigorosamente. Importante também é a elevada liquidez internacional, aumentando nos investidores o apetite pelo risco e afastando a possibilidade de uma crise de liquidez nas contas nacionais no curto prazo. Não há dúvidas que um saldo comercial projetado de cerca de US$ 40 bilhões para este ano representa um colchão razoável a um eventual ataque especulativo à moeda ou a uma súbita mudança de humor dos capitais financeiros internacionais. Em 2002, ocasião em que os rumos da política afetaram gravemente a economia, o Brasil precisava de quatro anos de exportação para pagar a sua dívida externa. Hoje o país precisa de apenas dois anos, se analisarmos os últimos 12 meses da balança comercial, o que indica claramente que a economia está menos vulnerável externamente. Curiosamente, ao contrário do que afirmavam muitos economistas, a redução da vulnerabilidade externa do Brasil não foi suficiente para reduzir os juros no país. Outro fator importante para a não contaminação da economia pela política tem sido o desempenho fiscal, com o atual superávit primário de 5,02% do PIB (até maio), acima da meta fixada para o ano de 4,25% do PIB, e a redução da parte da divida pública doméstica indexada ao câmbio, que caiu para 14,1% em maio último, devido aos resgates de títulos indexados ao câmbio nos vencimentos. Essa mudança representa uma melhoria do perfil da dívida pública, visto que a taxa Selic está, em princípio, mais sob controle do governo, do que a taxa de câmbio. Uma grata surpresa tem sido os últimos indicadores de inflação, que reduziram significativamente nos últimos dois meses e que, projetados para os próximos, já convergem para o centro da meta estabelecida pelo governo (5,1%). A queda da inflação possibilita as condições para um novo ciclo de redução da taxa Selic, que pode se iniciar ainda em agosto. Mas cautela aqui é fundamental, pois a queda da inflação está relacionada em boa parte à valorização do câmbio (cerca de 13% até final de junho), o que tornou o real a moeda mais valorizada do mundo no período. Em algum momento esse fator pode reverter, especialmente com a possível (e esperada) queda da taxa de juro real, e novamente ingressarmos em um período de crescimento inflacionário com a retomada do conhecido e já rotineiro ciclo: inflação em elevação, aumento de juros, e redução do ritmo de crescimento do PIB. Mas é ilusão imaginar que a economia está totalmente blindada em relação à crise política. Já na última semana de julho, a mudança de comportamento do investidor externo foi nítida, e as empresas começaram a reduzir o peso dos títulos brasileiros em sua carteira de investimentos, com impacto imediato no mercado de câmbio, com forte alta do dólar, e na Bolsa de Valores de São Paulo, que caiu 3,39% em apenas um dia (25/07). O risco Brasil também foi fortemente afetado atingindo 421 pontos básicos. O quanto a crise política vai contaminar a economia irá depender dos futuros desdobramentos da primeira.
* Economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.
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